4 de dez de 2015

A IMPORTÂNCIA DO FILME NA ARTETERAPIA Elenice Facundes Monteiro[1] Danielle Bittencourt[2]

A IMPORTÂNCIA DO FILME NA ARTETERAPIA

Elenice Facundes Monteiro[1]
Danielle Bittencourt[2]

Resumo

O presente trabalho procura mostrar a importância do Filme como recurso arteterapêutico, considerando as imagens, a sonoridade e o enredo como instrumentos privilegiados para estimular os processos criativos e a transformação do indivíduo. Apresenta também como ilustração, um relato de caso que comprova a ação criadora e transformadora levando o participante ao seu processo de Individuação através da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung. Para coleta de informações foi realizado um estágio no IRD, Instituto de Radio proteção e Dosimetria, com 40 encontros, oito participantes, idades entre 45 e 65 anos; dividido em três etapas: Identificação da Demanda de Grupo, Amplificação e Fechamento. Será focada aqui a fase de Amplificação onde foi trabalhado o filme À Procura da Felicidade.

Palavras-chave: Cinema; arteterapia; trajetória do herói; transformação.


Abstract

This paper seeks to show the importance of film as an art-therapeutic feature, considering the images, the sound and the plot as privileged instruments to stimulate the creative processes and the transformation of the individual. Also presents as an illustration, a case that proves all this creative and transformative action, taking the participant (GE) to the individuation process of Analytical Psychology by Carl Gustav Jung. Information gathering was held on a stage IRD, Institute of Radio Protection and Dosimetry, during 40 meetings, with eight participants aged between 45 and 65 years; divided into three steps: Identification of the Group Demand, Amplification and Closing. It will be focused here, the phase of Amplification in which it was proposed a work on the film The Pursuit of Happynnes.

Keywords: Movies; art therapy; trajectory of the hero; transformation.


Resumen

Questo documento cerca di mostrare l'importanza del cinema come arteterapêutico caratteristica, considerando le immagini, il suono e la trama privilegiati per stimolare i processi creativi e la trasformazione dei singoli strumenti. Presenta anche come un esempio, un caso che dimostra tutta questa azione creatrice e trasformatrice prendendo il partecipante (GE) per il loro processo di individuazione di Psicologia Analitica di Carl Gustav Jung. La raccolta di informazioni si è tenuta una IRD palcoscenico, Istituto di Protezione delle Radio e dosimetria, 40 incontri, con otto partecipanti di età compresa tra 45 e 65 anni; diviso in tre fasi: Identificazione della domanda Gruppo, Amplificazione e chiusura. Discusso qui la fase in cui l'amplificazione stava lavorando al film La ricerca della felicità.

Parole chiave: Cinema, arte terapia, traiettoria della trasformazione dell'eroe.







Introdução

O objetivo principal deste artigo é fornecer um entendimento a respeito da importância do filme na arteterapia. Para tal, a abordagem junguiana será enfatizada como objeto de estudo para compreensão dos fatores envolvidos na presente questão.
A pesquisa tem relevância teórica baseada no fato de que a abordagem da arteterapia tem sido objeto de estudo e de intervenção em inúmeras situações atuais, além de fornecer subsídios para que profissionais da saúde e da área social tenham sucesso em suas interferências e possam atingir os resultados esperados.  
É sabido que os filmes propiciam imagens que levam a reflexões e insights, apresentam conflitos e soluções, ativam a imaginação e favorecem a criatividade e o autoconhecimento. Dentro da abordagem Junguiana, são poderosas ferramentas arquetípicas, atuando no processo de transformação e equilíbrio.
Ao assistirmos um filme, nossa imaginação é ativada através das imagens, da sonoridade, do enredo... Essas imagens vão se unindo umas às outras como um fio condutor de significados pessoais a partir da expressão de sentimentos relacionados aos personagens apresentados.
Além de ativar a imaginação e estimular a criatividade, os filmes ajudam o arteterapeuta a identificar a parte do enredo que mais tocou emocionalmente o seu cliente, e assim, ajudá-lo a fazer identificações com sua própria vida que o levarão a transformações muito significativas.


A origem do cinema

O cinema nasceu no final do século XIX, em 1895, na França pelos irmãos Loius e Auguste Lumière. Esta criação revolucionária no mundo das artes, teve seus primeiros filmes exibidos para o público de trinta e três pessoas no Salão Egípcio do Grand Café de Paris.
O programa era formado por filmes curtos, entre eles, aquele que é considerado o primeiro filme do cinema- A Saída dos Operários da Fábrica. Em seguida o famoso A Chegada do Trem na Estação de Ciotat que segundo a lenda, assustou os telespectadores. A imagem do trem avançando na direção da sala fez com que muitos se escondessem em baixo dos bancos para se protegerem.
Assim, nasce a arte do cinema que algumas pessoas já definiram como uma viagem ao mundo da fantasia e da imaginação, outros descreveram como algo hipnótico; e outros, talvez, mais sensíveis, como mágica.
Cinema e Jung nasceram no fim do sec. XIX, portanto cresceram juntos. Talvez se Jung tivesse nascido um pouco mais tarde, pudesse ter recorrido mais plenamente ao cinema como forma de explicitar a dinâmica psíquica a realidade dos arquétipos e dos complexos.

A arte cinematográfica com suas possibilidades quase ilimitadas de dialogar com espectadores, não ficou restrita ao campo de contar histórias ou de ser apenas um elemento de entretenimento para o público. Como tela de projeção da nossa realidade, o cinema mesclou toda a beleza da arte com os arquétipos, os simbolismos da vida surreal, a complexidade das relações entre as pessoas e com os meandros da emoção da alma humana. (BRANDÃO & BRANDÃO, 2013, p.188).


O cinema e a arteterapia

O cinema é uma manifestação estética a qual muitos consideram de a 7ª arte.  Tem sido um espaço privilegiado para a maior compreensão de si mesmo. Segundo Monteiro (2013), a respeito da teoria junguiana, a projeção é o primeiro passo do autoconhecimento; vemos com clareza o que se passa fora, com os outros e, após este processo de percepção e compreensão do acontecer fora, torna-se muito mais fácil voltar a visão para dentro. Um filme permite com seu rico engajamento de imagens unir nossas funções de pensamento, sensação, intuição e sentimento. Somos tomados por suas imagens e não há como não sermos tocados por elas. O autor diz ainda que a assimilação dos conteúdos do inconsciente “alarga não somente as fronteiras do campo da consciência como também o significado do eu, principalmente quando este se defronta com o inconsciente sem atitude crítica, tal como acontece na maioria dos casos.” (MONTEIRO, 2013, p. 197). Constatamos que na atividade clínica, também os filmes se colocam como recursos técnicos de grande valor; eles nos falam à alma, vão ao recôndito de nós mesmos. Portanto, são eficazes recursos de ampliação da consciência.

A Arteterapia utiliza recursos artísticos com finalidades terapêuticas sem se preocupar como desempenho estético. Utiliza vários materiais (barro, tintas, lápis de cor, sucatas,...) e várias técnicas como desenho, pintura, colagem, modelagem, tapeçaria, música, dança, teatro, cinema como canal de expressão que vai facilitar o processo de Individuação.
A Arteterapia encanta pelo fato de trazer ao indivíduo respostas muito mais rápidas se comparada ao contexto terapêutico tradicional. O indivíduo não necessariamente precisa expressar verbalmente suas emoções, pois esses sentimentos serão expostos por meio aos estímulos produzidos pelos materiais utilizados; possibilitando, assim, um retorno às vivências anteriores, acessos aos conflitos infantis, traumas, enfim, um confronto com a própria sombra. Algo que leva tempo para se alcançar na terapia tradicional. Uma participante do estágio, denominada G.E, fez referência à terapia dizendo nunca ter tido tantas descobertas sobre si e avanços com relação ao seu passado, como tem agora através das sessões de Arteterapia.
Segundo Monteiro (2013), a imaginação é uma das chaves mais importante para a compreensão de si mesmo. A imaginação possibilita uma concentração de conteúdos do inconsciente, que só podem ser acessados através de símbolos ou imagens arquetípicas. Esta realidade arquetípica ganha maior visibilidade através do Cinema.
Através da sua sonoridade, imagens, dinamismo e enredo, os Filmes nos levam às profundezas de nossa alma, e sem percebermos, nos afetam e nos transformam. Monteiro (2013) citando Jung, sobre o livro O problema espiritual do homem moderno, diz que o “cinema, como história de detetive, permite-nos experimentar, sem perigo para nós mesmos, todas as excitações, paixões e fantasias”. (MONTEIRO, 2013, p. 195).


A função terapêutica dos filmes

O filme, assim como todas as formas de expressão artística, tem como instrumento de trabalho o ser humano e a expressão de suas emoções. O filme vai muito além de um entretenimento, leva-nos a identificações profundas com os personagens e os enredos, auxiliando-nos a nos conectar com um passado distante e com forças primitivas e poderosas da nossa psique.
A vivência através dos filmes e de suas metáforas exerce um poder não verbal, potencializando as emoções, oferecendo esperança e encorajamento através da identificação com cenas, personagens, e assim, possibilita a busca da superação, identifica e reforça forças perdidas, e muito mais... Muitos filmes abordam mitos e nos levam a fazer leituras e releituras; catarses de conteúdos guardados no mais profundo do nosso ser. Silveira (1997) diz que Jung falava sobre o fato de que “os mitos são principalmente fenômenos psíquicos que revelam a própria natureza da psique.” (SILVEIRA, 1997, p.144).
Segundo Berg-Cross et al. (1990) o impacto da cinematerapia é claro: melhora a comunicação entre cliente e terapeuta, proporciona uma compreensão mais profunda da personalidade, auxilia na criação de metáforas terapêuticas significativas.  As metáforas, ao serem repetidas com frequência e aplicadas à vida do paciente, despertam mudança de comportamento, autocrítica e aprofundamento do autoconhecimento.
Hesley & Hesley (2001) acrescentaram outros potenciais dessa intervenção psicoterápica, falando que a capacidade do paciente praticar fora da terapia o que foi aprendido nela, intensificaria os efeitos da terapia no ambiente doméstico do mesmo, adiantaria o progresso terapêutico ao permitir melhor evolução e modificação do tratamento.
Os autores, apesar de usarem o termo videowork, fizeram uma descrição pormenorizada do que até o momento vinha sendo chamado de cinematerapia. As principais características apontadas por esses autores são  que os  filmes são indicados para reforçar uma idéia introduzida na terapia e principalmente para estimular a busca da autocrítica pelo paciente onde o  terapeuta deveria pedir ao paciente que ele nomeasse alguns filmes pessoalmente mais significativos, valorizaria  os gêneros de filmes preferidos, além dos personagens que mais o impactaram. Desse modo, não haveria imposição das preferências estéticas do terapeuta. Daria sugestão de algumas películas caso o paciente tivesse poucas referências fílmicas, o processo de mudança que ocorre com os personagens e entre eles seria o ponto mais importante a ser analisado em um filme, o paciente precisaria prestar atenção em como os personagens aparecem no começo do filme, como eles reagem diante dos conflitos e como estão diferentes no final da estória.
Alguns filmes abordam mitos e nos levam a fazer leituras e releituras; Catarses de conteúdos guardados no mais profundo do nosso ser. “Os mitos são principalmente fenômenos psíquicos que revelam a própria natureza da psique”. (SILVEIRA, 1997, p.114).

A jornada do herói mitológico no cinema

Segundo Joseph Campbell, autor do livro O Herói de Mil Faces, as histórias estão ligadas por um fio condutor comum. Paralelamente às teorias de Jung sobre os arquétipos e o inconsciente coletivo, Campbell (1995) afirma que desde os mitos antigos, passando por fábulas e contos de fadas, até os recentes best-selers do cinema, a humanidade vem contando e recontando sempre as mesmas histórias. A esta história oculta dentro de outras histórias, ele chama de A Jornada do Herói Mitológico.
Partindo dos conceitos de Campbell, Chistopher Vogler (1997), em seu livro A Jornada do Escritor fez um roteiro mais adequado às narrativas contemporâneas (cinema, televisão, etc).

Figura 1
Fonte: Campbell, V. A jornada do escritor.
A jornada do herói em À procura da felicidade

Este filme é inspirado em fatos reais e se passa no ano de 1981 em San Francisco. O filme mostra a incansável luta deste homem, Chris Gardner, interpretado por Will Smith, passando por altos e baixos. Há momentos em que tudo parece impossível de se resolver. Mas com sua força e determinação vence todos os obstáculos, tornando-se assim, um verdadeiro Herói Humano. Seu maior incentivo é o filho de 5 anos, que não abre mão, após ser abandonado pela esposa. Supera suas dificuldades com muita luta, dia-a-dia, juntamente com seu filho.
Seguindo o roteiro de Vogler (1997), a trajetória do herói Chris Gardner seria a seguinte:

Tabela 1 – Cenas de À procura da felicidade


Tempo

Etapas da estrutura do conto

Cenas do filme

1- 9 min

MUNDO COMUM
O personagem principal, Chris Gardner, está em seu apartamento com sua esposa e seu filho em sua rotina diária, com seus problemas financeiros, discutindo com a esposa;
O Chris deixando o filho na escola;
Tentando vender seus scanners em hospitais e consultórios;
A esposa em seu ambiente de trabalho também dando duro.

9min 45s

CHAMADO Á AVENTURA
Quando ao passar na rua vê um homem bem vestido saindo de um carrão vermelho em frente a Corretora da Bolsa de Valores e pergunta: “O que você faz e como faz pra ter tudo isso?” Precisa fazer faculdade pra isso?
O homem responde: “Só precisa ser bom com números e com pessoas”.
Ele olha ao seu redor e percebe que todos estão felizes então se questiona: “Porque não posso ser como eles?


46min

RECUSA DO CHAMADO
Quando ele tem medo de assumir o programa  por não ter salário. Seria um risco. De vinte inscritos, apenas um ficava.
20min

24min







1h 29min
 1h 48min


ENCONTRO COM O MENTOR
 Quando Chris Gardner procura o Responsável pelo programa de Corretagem, para entregar a ficha de inscrição. Este será o seu mentor.
Quando pega uma carona com o responsável pelo programa e mostra que é inteligente quando conseguiu fazer um encaixe em um brinquedo que ele tinha na mão dizendo que seria impossível alguém conseguir. Causou excelente impressão;
Após a entrevista, quando ele quer desistir, o Corretor chefe aconselha-o a ficar, retruca e diz que até à noite a vaga dele estaria garantida;
Aconselha-o a deixar o cliente vencer no jogo;
No banheiro, parabeniza-o pelo excelente trabalho e fala sobre reconhecimento;
Está junto na hora em que o herói recebe a recompensa.
31min
32min
35min

49min




TRAVESSIA DO PRIMEIRO LIMIAR
Ele transita o tempo todo entre dois mundos: mundo comum e mundo oculto;
Quando Chris aceita o programa de corretores e começa o estágio;
A esposa sai de casa, eles discutem e ele briga para ficar com o filho;
Rompimento definitivo do casamento: a esposa vai embora para Nova Iorque e ele assume o filho sozinho.

25min


39min

1h 23min

1h
1h 41min


1h 17min

 1h 42min


28h30min



 1h 16min






 1h13min

1h 37min



TESTES, ALIADOS E INIMIGOS
 Testes:
No taxi com o chefe do programa, prova para ele que é inteligente conseguindo decifrar o enigma de um brinquedo que todo mundo acha impossível conseguir.
Foi preso por não pagar multas de trânsito;
Entrega o apartamento e vai para um hotel;
É despejado do hotel;
Encontro com o investidor que não deu certo;
Foi atropelado;
Enfrenta filas de abrigos;
Briga por sobrevivência na fila do abrigo e na fila do ônibus;
Dorme uma noite no banheiro do metrô e outra no próprio  metrô;
Vende sangue para comprar fusível para consertar o scanner
Inimigos: - motorista de taxi;
               - as multas de trânsito;
               - a esposa que não acredita nele;
               - o amigo que lhe deve e dá as costas pra ele;
               - o governo que confisca todo seu dinheiro pelos impostos atrasados;
               - a moça que rouba o scanner;
               - o velho maluco que fica com o scanner caído do metrô;
                - o instrutor do estágio que pede tudo pra ele (café, estacionar carro,...)

Aliados: - filho;
              - o chefe do programa;
              - o investidor que o convida para um jogo e lá faz vários contatos 
              - Deus (a fé)   
42min


APROXIMAÇÃO DA CAVERNA OCULTA
De posse de toda coragem e autoconfiança, mesmo sujo de tinta e mal vestido, Chris vai para a entrevista com os diretores da bolsa de valores. E consegue causar boa impressão.

1h 27min


PROVAÇÃO SUPREMA
Quando tem que dormir no banheiro do metrô com o filho.
Sente-se no fundo do poço. Chora amargurado.


  1h 50min


RECOMPENSA
 Chris Gardner é chamado na sala do diretor e consegue o emprego definitivo. É contratado como corretor de ações.
Conquista sua dignidade, logo a FELICIDADE.

1h 46min


CAMINHO DE VOLTA
Essa cena passa-se na praia com o filho quando Chris tem um encontro com ele mesmo. Faz uma reflexão longe de tudo e de todos. Fala sobre o desapontamento com ele mesmo.


1h 47min


RESSURREIÇÃO
Aqui o herói não demonstra ter nenhum poder sobrenatural, mas sim o poder de superação que o ser humano é capaz de ter quando acredita nele mesmo e não desiste de seu sonho.
O Resgate da auto-confiança: “Quando eu era criança e tirava 10 na prova de História, a única certeza que eu tinha era que EU NUNCA SERIA UM FRACASSADO”


1h 51min



RETORNO COM O ELIXIR
 
A FELICIDADE
Do estágio

O Estágio, pré-requisito do curso de Formação Profissional em Artetarapia, foi dividido em três etapas: Identificação da Demanda de Grupo, Amplificação e Fechamento.
Na fase Amplificação foi trabalhado o filme À Procura da Felicidade com o Will Smith abordando o tema Superação tendo como base as questões de autoestima, perdas e capacidade de resiliência do grupo em questão, observadas e diagnosticadas na 1ª etapa.
Aconteceram cerca de 20 sessões nessa fase de Amplificação, tempo suficiente para elaborarem e transformarem várias questões vindas do inconsciente.
Assistiram ao filme em duas etapas. Falaram e escreveram sobre suas identificações com os personagens. Para um melhor entendimento sobre o filme, trabalharam as etapas da Estrutura do Conto, segundo o roteiro de Christopher Vogler, a partir de Joseph Campbell. Houve aqui uma identificação muito grande com a Trajetória de Herói. Todos quiseram fazer a correlação com suas próprias vidas.
Compreendido o filme e feitas as suas identificações, decidiram fazer para o Fechamento do Estágio, um Teatro de Fantoches, onde puderam confeccionar com papel marche, todos os boneco; pintaram os rostos, confeccionaram as roupas, construíram um painel, fizeram o roteiro para a apresentação, ensaiaram, elegeram uma narradora, e enfim, apresentaram.
Durante todo esse processo foi observado o quanto os participantes ressignificaram conteúdos como angústias, raivas, medos, culpas, frustrações, sonhos, desejos, que vieram à tona.

Relato de caso G.E
Para ilustrar a utilização do filme como autoanálise de uma participante, foi de suma importância destacar o caso de G.E.
A paciente relatou ter muitas cenas de identificação com sua infância e sua própria trajetória de vida. Para começar, disse que as cenas do filme em que o casal discute a fez lembrar-se de seus pais, que brigavam muito por conta do alcoolismo do pai. Segundo relato da própria paciente:

Não tenho muita paciência pra ver filme não... Só vejo filme se tiver algo que me prenda. Não vejo filme por ver. Mas esse filme me tocou porque é sobre a busca da Felicidade. A princípio, parecia ser uma história boba, de um pai com um filho, relacionamento em atrito, pai desempregado... E eu comecei a ver e sentir essa realidade, quando eu comecei a perceber a desunião da família. Porque eu convivi até os 13 anos com um pai alcoólatra, e uma mãe que representava muito essa esposa do filme... Minha mãe trabalhava, corria atrás, batalhadora... meu pai também trabalhava, ganhava dinheiro, mas bebia tudo... E eu muito cedo, em virtude dos problemas, tive que sair de casa...Tinha uma tia freira, que me amava muito e que me tirou da convivência dos meus pais e me levou pro interior de Santa Catarina. Ela foi a minha mentora... Ela fez tudo por mim, dentro das suas limitações como freira, como alguém que não tinha muitos conhecimentos, mas ela tinha muita coragem... E tudo o que eu sou hoje, eu sou graças a ela... Outra cena do filme que me marcou foi quando eles não tinham onde dormir, lembrei-me de uma vez, eu e minha tia, em São Paulo, sem dinheiro pra pagar hotel e nenhum lugar pra dormir... Eu só chorava de medo... Lembramos de uma amiga do Acre que morava perto da Av: Paulista, onde estávamos, e fomos pedir abrigo... Minha tia sempre com sua delicadeza só me dizia assim: “Minha filha, você não desista, você tem que ser forte. (relato pessoal da paciente G.E).


Figura 2 – Relato de G.E sobre o filme À procura da felicidade



Sobre a cliente

 No inicio, achava-se incapaz de tudo: de pintar, de desenhar, de dançar, de cantar, de sentar no chão... E colocava toda a culpa de suas dificuldades na obesidade, que a acompanha desde a infância. Sua maior característica é a auto-estima muito baixa. Segundo ela, seu pai roubou toda sua beleza.

Figura 3 – Fotos de G.E quando menina.



Sua concentração era precária, muito descuidada com o seu material, deixava cair tudo de suas mãos. Achava tudo que ela fazia feio; o do outro era sempre mais bonito. Dizia não levar jeito pra artes desde a infância.
Mas foi a participante que mais se desenvolveu, mais se transformou, principalmente quando entrou na fase de Amplificação.
Conseguiu acessar conteúdos seriíssimos de sua infância, sendo uma verdadeira Catarse para ela. Conseguiu falar do afastamento dela da família e de toda sua Trajetória de Herói.  
Durante todo o seu processo ela expurgou muita raiva guardada durante anos. A cada dia mostrava-se mais feliz e sentia-se aceita pelo grupo.  Reconhecendo suas limitações e frustrações, passou a ter mais paciência com ela mesma, e assim caminhou bem.
No Fechamento do Estágio, o grupo decidiu representar o filme em forma de Teatro de Fantoches. E teriam que escolher seus personagens. A GE escolheu ser a Linda. E o processo de vivência do personagem se deu desde a confecção do fantoche até a sua representação, propriamente dita. Com esse personagem ela pode reviver o papel de sua mãe, projetando assim, toda a raiva do pai, guardada lá no fundo do seu íntimo.
No ultimo dia de Estágio, conseguiu contar para todo o grupo, do abuso sexual pelo próprio pai, alcoólatra, inclusive depois de adulta.
Contou que aos 27 anos, voltou ao Rio, para morar e cuidar do pai, pois todos tinham abandonado. Ninguém aguentava mais. Ele vivia sendo internado. E aos 32 anos, o pai, bêbado, tentou abusar dela novamente. Foi quando, num ímpeto de defesa, ela deu-lhe uma tapa e ele caiu. Internou-o novamente. Desde este dia, ele foi ficando triste, com muito remorso e só saiu morto do hospital. Antes de ele morrer, ela conseguiu perdoá-lo para que ele partisse em paz. Diz que amava muito o pai, mas que ele a decepcionou muito.
Diante disso, pudemos observar que a participante faz uma viagem em sua própria trajetória, através das vivências com o filme, passando por todas as fases que um herói pode percorrer.
Seguindo o roteiro de Vogler (1997), a trajetória do herói de G.E seria a seguinte:

Tabela 2 – Trajetória do herói de G.E.

MUNDO COMUM
Conhecemos o herói em seu mundo comum. No Acre morando com seus pais. Família em atrito. Alcoolismo do pai.
CHAMADO À AVENTURA
Quando é levada para o interior de Santa Catarina para morar com uma tia freira
RECUSA DO CHAMADO
Chora muito com saudades de sua mãe e seu irmão, de sua própria casa. Tem vontade de voltar, mas pensa no inferno que era conviver com um pai alcoólatra.
ENCONTRO COM O METOR
Em Santa Catarina, com  sua tia freira, que a orientou em tudo na vida.
TRAVESSIA DO PRIMEIRO LIMIAR
Morando em um pensionato em Santa Catarina.

TESTES, ALIADOS E INIMIGOS
Com dois anos, que morava no pensionato, com sua tia sempre por perto a protegendo, veio a notícia da transferência de sua tia para outra Congregação. Ela precisa ser muito forte! Agora, mais que nunca!
APROXIMAÇÃO DA CAVERNA OCULTA
De posse de toda auto-confiança, volta para o Rio para “enfrentar seu inimigo”, para morar  e cuidar de seu pai.
PROVAÇÃO SUPREMA
Quando enfrenta seu pai, seus próprios monstros internos e dá-lhe uma bofetada até derrubá-lo. E derrotá-lo após um assédio.
RECOMPENSA
Conquista  enfim sua liberdade, auto-confiança e dignidade.
CAMINHO DE VOLTA
Retoma as rédeas da própria vida. Assume-se vitoriosa.
RESSURREIÇÃO
Sente-se confiante em si mesma pra seguir seu caminho.
RETORNO COM O ELIXIR
Liberdade e Confiança em si mesma.

Segundo Silveira (1997), Jung afirma “não basta ao primitivo ver o nascer e o pôr- do- sol; essa observação externa será ao mesmo tempo um acontecimento psíquico: o sol, no seu curso representará o destino de um deus ou herói que, em última análise, habita a alma do homem.” (SILVEIRA, 1997, p. 114).
No entanto, a autora diz, ainda que

(...) a eficácia do feito heróico tem breve duração. O sofrimento do herói renovam-se incessantemente,pois se de uma parte o atrai a conquista de níveis de consciência mais altos, de outra parte também o fascina a volta ao inconsciente, que tem as seduções do abraço materno. Ele sofre, dividido por forças opostas. A luta pela vitória da consciência é o eterno combate de todo homem.” (SILVEIRA, 1997, p.115).



Conclusão

Os filmes tocam no mais intimo das pessoas, assim como a música, o teatro e  todas as formas de expressão da arte. A Arteterapia vem ganhando espaço e credibilidade, pois atua de forma concreta transformando emoções.
Os efeitos desse processo arteterapêutico podem ser comprovados com o exemplo que aqui relatei, da participante GE. Os filmes tocam  profundamente, iluminando, potencializando, arejando e até curando emoções em desequilíbio.
Em momentos em que parecemos perder a nossa fé, a nossa energia psíquica, ao assistirmos um filme com o olhar terapêutico, poderemos resgatar a nossa força, o nosso herói que estava adormecido. Até termos a total consciência de que mesmo o herói dotado de toda a sua valentia, em outras versões, ele é só uma pessoa comum e sem esquercermos jamais que somos apenas seres humanos  em contínua transformação.

Referências

BERG-CROSS, L.; JENNINGS, P, BARUCH, R. Cinematherapy: theory and application. Psychotherapy in Private Practice, n. 1, v. 8, pp. 135-157, 1990.


BRANDÃO, C. A., BRANDÃO, M. O cinema e o inconsciente. In: MONTEIRO, D. M. R. Jung e o Cinema: psicologia anlítica através de filmes. Curitiba: Juruá, 2013.


CAMPBELL, J. O herói de mil faces. São Paulo: Pensamento,1995.


HESLEY J. W, HESLEY, J. D. Rent two films let´s talk in the morning: using popular films in psychotherapy. 2 ed. Nova York: J.Wiley, 2001.


MONTEIRO, D. M. R. Jung e o Cinema: psicologia anlítica através de filmes. Curitiba: Juruá, 2013.


SILVEIRA, N. Jung: vida e obra. Rio de Janeiro, Paz e Terra,1997.


VOGLER, C. A Jornada do Escritor. Rio de Janeiro, Ampersand Editora, 1997.



[1] Elenice Facundes Monteiro, Licenciada em Letras- Língua Portuguesa e Italiana com suas respectivas literaturas-UFC/CE; Microempresária Individual do Atelier Entre Amigas/RJ- Professora de Pintura Country e Decorativa; Formação profissional  em Arteterapia- Centro de Arteterapia Danielle Bittencourt/RJ (Cursando).
[2] Danielle Bittencourt, Mestre em Criatividade e Inovação-UFP; Pós-Graduada em Psicologia Junguiana-IBMR/RJ; Psicóloga - UVA/RJ; Arteterapeuta-Clínica - Pomar,RJ;  Terapeuta Familiar Sistêmica-Núcleo-Pesquisas/RJ; Graduada em Artes Plásticas-UDESC/SC; Coach facilitadora criativa do mestrado online  em Criatividade e Inovação pelo IACAT/Espanha. Coordenadora Geral e Acadêmica da formação profissional em Arteterapia do Centro de Arteterapia Danielle Bittencourt/RJ.

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